Textos sobre o Casarão dos Guarapes


Coletania de textos:

Sítio histórico no Guarapes é 

saqueado e sofre depredações

Publicação: TN 2015-03-04 00:00:00 |  Marcelo Lima - repórter

U m sítio histórico localizado no bairro dos Guarapes, zona Oeste de Natal, é constantemente saqueado e depredado, segundo os moradores das proximidades. O conjunto tombado pelo patrimônio histórico estadual compreende o Casarão dos Guarapes, um antigo armazém e um trapiche construídos pelo comerciante Fabrício Pedroza no século 18. Em ruínas, as três edificações ficam próximas uma da outra e estão dentro de nove hectares de área. Apesar do crítico estado de conservação, as paredes e fundações não são poupadas de roubo.
Júnior SantosConstruído no século 18, a estrutura do casarão está em ruínasConstruído no século 18, a estrutura do casarão está em ruínas

O casarão é o mais acessível e íntegro dos três.  Algumas janelas ainda possuem restos da moldura em madeira.  As paredes, com tijolos aparentes e cerca de 40 centímetros de espessura, permanecem erguidas. Mas alguns moradores que nasceram e cresceram visitando o lugar acreditam que o prédio não irá se manter por muito tempo. O auxiliar de serviços gerais José Waltércio da Silva, de 23 anos, percebe a diferença ao longo dos anos desde a primeira vez que foi ao casa em uma aula de campo aos 13 anos de idade. “Não tinha esses buracos nas paredes, eram maiores. Esses buracos no chão é porque os alicerces foram tirados”, disse ele. 

Internamente, não sobrou parede alguma. Uma pilha de pedras se acumula em uma das regiões da casa. Outro morador do bairro acredita que o material empilhado não serviria para o objetivo dos saqueadores. “Eles deixam essas aí e levam só as partes inteiras. Tem gente encomendando esses tijolos para enfeitar a casa”, cogitou José Valdilon da Silva, 32 anos, servidor público. 

Apenas cercas de arame protegem a antiga casa e escritório de 240 metros quadrados. Localizada no alto de uma colina, a vista da casa é o encontro do rio Jundiaí – que mais à frente transforma-se em  Potengi -  com o rio Guarapes. Dali, o comerciante também ficava de olho no seu porto privado. 

Para chegar ao velho porto de Pedroza, o único meio de acesso é o rio Guarapes, afluente do Jundiaí. A estrutura é composta de um trapiche e do pouco que sobrou de um armazém. Segundo moradores do bairro, apenas os alicerces resistiram ao desgaste natural com o tempo. Mas só recentemente os tijolos da fundação começaram a ser levados. 

Da retirada desse  material, só sobraram marcas no chão, abertas em volta dos alicerces. “Aqui acho que não tem mais o que ser feito aqui. Não dá pra restaurar. O que se deve fazer é cuidar e preservar o casarão lá em cima”, comentou o servidor público José Valdilon em tom de resignação. 

O vizinho dele enxergou rastros nas proximidades do antigo armazém no domingo passado. “Eles trabalharam e levaram mais coisa. Tinha até marca de carro de mão no chão”, lembrou José Waltércio. Embora nunca tenha visto o flagrante, os responsáveis pelo desmonte utilizam canoas para retirar o que sobrou, visto que as modificações são quase que diárias. 

Durante a visita da reportagem da TRIBUNA DO NORTE ao local, as ruínas do trapiche estavam submersas em função da maré alta. Mas, segundo os moradores, a estrutura de 320 metros (da terra firme ao atracadouro) ainda não se tornou alvo dos saqueadores. 

O professor e ambientalista do movimento Mangue Vivo, Milton França Júnior, acredita em duas hipóteses para o sumiço do material histórico. “Uma suspeita é que os ribeirinhos estejam fazendo alguma construção e utilizem essas pedras na base de suas casas. Mas não podemos descartar que estejam sendo levados para alguém que enxergue o valor histórico desse material”, falou. 

Pedroza
Nascido na Paraíba, Fabrício Pedroza veio para o Rio Grande do Norte e casou-se com Damiana, herdeira do sítio Cuité. A propriedade rural deu origem ao município de Macaíba. Era do casarão que ele comandava o porto que teve seu auge entre 1860 e 1890, chegando a rivalizar em volume de mercadorias movimentadas com o porto de Natal, localizado na rua Tavares de Lira. O porto do paraibano chegou a exportar couro, algodão, açúcar e cereais para outras partes do Brasil e Europa. Em 1990, as ruínas viraram patrimônio histórico estadual. Pedroza também é patriarca da família que gerou três governador do Estado (Pedro Velho, Alberto Maranhão e Sílvio Pedroza). O empresário de transporte público, Augusto Maranhão é um dos descendentes do comerciante. 

ninho das garças
Muito próximo do sítio histórico, também há um ninhal de garças - segundo Milton França, o único da Grande Natal. Esse foi outro motivo que chamou sua atenção para essa questão. A proposta do ambientalista é que toda a região se torne um Eco Parque estadual com atividades de ecoturismo desenvolvidas pela população do bairro. 

“O complicado é que o ninhal das garças fica muito próximo ao sítio histórico. Mas talvez se restaurassem o armazém daria para fazer um posto de pesquisa, ou algo desse tipo”, sugeriu.

Mas essa não é a primeira iniciativa para tentar ocupar o complexo histórico. Em 2011, a Fundação José Augusto (FJA) formatou um projeto de restauração no valor de R$ 800 mil apenas para o Casarão dos Guarapes. A ideia era transformar o Casarão dos Guarapes em um centro cultural.  Só que tudo isso só ficou no projeto mesmo. 

“Foi eu quem fiz o projeto, ficaram de restaurar o prédio e o projeto ficou lá na Secretaria de Infraestrutura [SIN]”, disse Paulo Eider Feijó, arquiteto especializado em patrimônio histórico da FJA. Ele falou também que não tinha novidades a acrescentar. A reportagem da TRIBUNA DO NORTE entrou em contato com a assessoria de imprensa da SIN, mas não obteve resposta.
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Fragmento histórico

Publicação: TN 2011-05-04 00:00:00 |  Yuno Silva - repórter 

O bairro Guarapes, zona Oeste de Natal, costuma ser lembrado nos noticiários locais por questões ligadas à segurança pública e tratamento de esgoto. No tocante à Cultura, o que chama mais atenção é a presença substancial de grupos de Hip Hop. Mas a região guarda uma edificação de fundamental importância para se entender a história comercial do Rio Grande: o Casarão dos Guarapes. Localizado na divisa entre Natal e Macaíba, às margens da BR-226, o bairro é dividido ao meio pelo rio de mesmo nome, nas proximidades do Potengi (corrigindo: Estuário do Rio Jundiaí), e a antiga construção, que fica no alto da colina do lado de lá da fronteira municipal, foi testemunha de um período de grande movimentação e prosperidade ainda no século 18.

Ruínas do casarão e antigo empório nos Guarapes, em Macaíba, estão sendo estudados para restauro e podem se transformar em futuro centro culturalAntigo entreposto comercial, o Casarão dos Guarapes, abandonado – segundo registros históricos – desde a década de 1940, era sede comercial do porto operado pelo comerciante paraibano Fabrício Gomes Pedroza. Propriedade do Governo Estadual, tombada no início dos anos 1990 pelo Patrimônio Histórico do RN, a edificação está sob os cuidados da Fundação José Augusto. Após décadas esquecidas no meio do mato, as ruínas passam por avaliação técnica para possível restauração: o objetivo é que se transforme em um centro cultural para abrigar acervo alusivo às atividades comerciais. A estimativa inicial é que sejam investidos R$ 800 mil na restauração.

“O porto, que funcionou às margens do Rio Guarapes, ainda hoje navegável, escoava grande parte da produção de municípios próximos como São Paulo do Potengi, Ielmo Marinho, Santa Cruz, Serra Caiada e São Pedro para a capital. Também disputava com Natal em matéria de exportações: dali, Fabrício Pedroza enviava couro, algodão, cereais e açúcar  para a Europa e outras partes do Brasil”, explicou Marcelo Augusto Medeiros Bezerra, secretário de Cultura de Macaíba. “Acredito que seja de extrema importância para a memória cultural do RN reocupar o Casarão dos Guarapes”, aposta.

O auge de funcionamento do porto, segundo Marcelo, foi entre os anos de 1860 e 1890: “Quando Fabrício Pedroza ficou doente e foi se tratar no Rio de Janeiro, onde faleceu, a rixa acirrada com comerciantes de Natal deixou o entreposto subutilizado. Na época, Pedroza movimentava, praticamente sozinho, o mesmo volume de mercadorias de todos os comerciantes que utilizavam o porto da Tavares de Lira, na Ribeira”, disse o secretário.

Vestígios

Do antigo porto não restou nada para contar história, mas as sólidas paredes do Casarão dos Guarapes, com pouco mais de 200 metros quadrados, onde funcionava a casa e o escritório de Fabrício Pedroza, reinam soberanas em meio ao terreno com nove hectares de área. “No momento, estamos fazendo um levantamento completo em busca de vestígios que possam revelar detalhes da construção. Precisamos saber quais os materiais utilizados na construção, a cor original das paredes externas, o revestimento interno, entre outros pontos, para elaborarmos um projeto de restauração”, informou o arquiteto especializado em Patrimônio, Paulo Eider Feijó, da Fundação José Augusto.

O arquiteto acredita que, pelo tamanho da área (nove hectares), o espaço cultural comporte outra atividade: “Além da necessidade de adequar as vias de acesso, temos terreno para erguer outro equipamento. Tudo isso vai depender da vontade política, das articulações entre o Estado e o município. Tem muita gente interessada que a restauração aconteça, e o prédio merece um cuidado especial pela simbologia histórica que carrega”, afirma Paulo Eider.

Questionada sobre os recursos, a secretária Extraordinária da Cultura, professora Isaura Rosado adiantou que os R$ 800 mil para iniciar a restauração estão garantidos dentro do orçamento do Governo do RN: “Após o relatório final com o projeto de restauração, vamos abrir, no segundo semestre, licitação para iniciarmos as obras. Mas ainda não temos o valor final do orçamento”, disse. Quanto à possibilidade de se construir outro equipamento cultural na área, Isaura informou que há planos: “Vamos avaliar todas as possibilidades”, conclui.

Acervo

Porém, sempre têm poréns nesses projetos, além da urbanização necessária no entorno (vias de acesso, estacionamento) e estruturação de apoio (banheiros públicos, quiosques para alimentação e centro de apoio ao visitante), fatores cruciais para potencializar o lugar como destino turístico, o acervo é o grande desafio a ser superado. Como e com o que vão preencher o Casarão dos Guarapes depois de restaurado? A sustentabilidade econômica é outra questão ainda não considerada.

Sobre a questão do acervo, Marcelo Bezerra disse que “a Secretaria de Cultura de Macaíba pode entrar com material (objetos, documentos e fotos antigas) sobre a cidade. Acredito que muita gente possa colaborar, inclusive da família de Fabrício Pedroza”, adianta.

Como o espaço funcionaria como uma espécie de memorial do comercio do RN, Marcelo disse que o Sistema Fecomércio pode ser parceiro do empreendimento. “Temos conhecimento desse projeto, mas sem detalhes. Posso adiantar que o Sistema Fecomércio (Federação, Sec e Senac) tem total interesse em ser parceiro”, informou Luciano Kleiber, assessor de imprensa da Fecomércio.

Em tempo: Fabrício Gomes Pedroza nasceu em Areia (PB), e em Macaíba casou com Damiana, filha do proprietário do sítio Cuité, que deu origem a Macaíba (o nome do município é inspirado na espécie de palmeira introduzida na área por Pedroza). Fabrício teve 32 filhos e foi o elo que ligou as tradicionais famílias Pedroza e Maranhão: ele é pai de Feliciana, que casou com Amaro Barreto. O casal teve três filhos: os ex-governadores Pedro Velho (1856-1907) e Alberto Maranhão (1872-1944), mais o aviador Augusto Severo (1864-1902). Além dos netos famosos, Fabrício era bisavô do também ex-governador Sílvio Pedroza (1918-1998) e tetravô do jornalista e empresário Augusto Maranhão.
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O casarão dos Guarapes - por 


A noticia de que o deputado federal Rogério Marinho, aprovou emenda ao orçamento da União no valor de 250 mil reais, para ajudar nas obras de restauração do Casarão dos Guarapes, em Macaíba, me fez recordar a visita que fiz em junho de 2008 ao antigo entreposto comercial de maior repercussão no Rio Grande do Norte. Um ano depois, sábado passado dia 08 de agosto, conduzi uma equipe de reportagem da tv Ponta Negra, que deseja ajudar a campanha pela restauração do lugar.


Na tarde do último sábado de junho, eu, Cecília e o historiador Wagner Rodrigues nos dirigimos à comunidade de Guarapes, município da Macaíba. Buscávamos chegar ao antigo núcleo irradiante de um alto talento econômico. Iniciamos o percurso subindo pela ladeira que o mato torna difícil. Chicoteados pelos galhos, saudados pelos confetes das folhas verdes e úmidas surge a antiga morada. No cimo do monte, a casa grande do Major Fabrício Pedroza (1809-1872).


O casarão nos mira pelas suas quatro pupilas apagadas de suas janelas escancaradas. Os umbrais de cantaria sustentam o corpo imóvel e morto através do tempo. O mato irrompe pelas salas onde soara a voz de mando do lendário Fabrício Gomes Pedroza. Salões, salas, saguões amplos, altos, convidativos, remetem ao ambiente desaparecido.


Local para as pescarias do agreste e passagem para o sertão do Seridó e zona do oeste. De tudo havia para vender e permutar. Era a casa inesgotável, o recurso financiador, a força poderosa.


Os armazéns transformaram a paisagem ribeirinha, hoje sobre os alicerces dos antigos armazéns, o assoreamento possibilitou o manto do manguezal estender-se: multiplicado e avassalador. Subindo este rio vazio e azul, vinte navios estrangeiros atravessavam o atlântico com a consignação que nunca mais se repetiu: Inglaterra – Guarapes.


A casa grande lembra as zonas de bombardeio. Lá, surgem inumeráveis escavações, bocarras, furnas, grotões que a vegetação disfarça. São os caçadores de tesouros, os sonhos de dinheiro enterrado, os teimosos que acreditam nas botijas de moedas de ouro, admitindo, contra toda lógica viva, que Fabrício Pedroza enterrasse dinheiro na terra em vez de tê-lo na mão segura e firme.


O passado está presente. Sensível. O ambiente acolhedor, a alegria instintiva e a paisagem deslumbrante não podem afastar a sensação nostálgica do passado, daquele centro sonoro, eficiente e tumultuoso, agora silencioso, sombrio, povoado de sombras e de saudades.

Trago um tijolo velho, pedra do solar da família. Pretendo guardá-lo como uma homenagem aos antepassados. Na volta para casa, as primeiras curvas ocultam a casa grande que permanece, no alto, de sentinela ao rio adormecido.

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